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21 fevereiro 2020

Após disparos contra Cid Gomes, PMs alteram cena do crime








Quando a poeira baixou, e o senador licenciado Cid Gomes foi socorrido após sofrer, na quarta-feira (19), dois disparos de arma de fogo a dez centímetros do coração, policiais militares amotinados varriam o chão do quartel com os olhos em busca dos cartuchos após os vários disparos que, pelo menos dois deles, fizeram na direção do parlamentar. O passo seguinte foi recolher suas mochilas e sair antes que o reforço anti-protesto chegasse: primeiro, a Polícia Civil, que ao chegar viu militares do Raio já “guardando” a entrada. Mas, das brechas da barreira humana se viam homens catando objetos no chão.

Depois, chegam policiais do Comando Tático Rural (Cotar). Estes já encontraram um batalhão praticamente vazio de amotinados com cerca de 20 viaturas com pneus vazios.
Do lado de fora, um portão arrancado e um trator. Vários estilhaços na cabine e uma perfuração à bala no retrovisor restaram de evidências de uma tragédia pior, pois não houve mortes.

O primeiro enfrentamento físico se deu após o “vou dar cinco minutos”, dito por Cid aos PMs, em pé no portão, para que os amotinados saíssem. Um deles lhe alcançou o rosto com a mão. Até os apoiadores do senador não esperavam que ele pedisse que Vangleisson, operador da máquina pesada, lhe cedesse o lugar. Raniere Azevedo, patrão do condutor que possui a empresa RCA Máquinas, estava lá com Cid. Ambos se conhecem há anos. A Construtora Mãe Rainha, da família do proprietário do veículo, teve contratos com a Prefeitura de Sobral, gestão atual de Ivo Gomes. Um deles foi a Praça Maria do Socorro, no Bairro das Nações, em janeiro de 2019.

Em vídeos que circularam nas redes sociais, antes e depois dos tiros, os manifestantes iam do “vai, Cid” ao “que marmota é essa”. A operação do ex-governador conduzindo a máquina durou até os tiros, pedras e aliados a socorrê-lo, a começar pelo tenente coronel Erlânio Matoso, secretário de Segurança de Sobral. Enquanto puxava Cid, era ferido com estilhaços na mão.
- Atiraram no Cid, atiraram no Cid!
A gritaria foi geral. Mas enquanto uns corriam para longe, outros ficavam na troca de pedradas. Não havia menos que 30 celulares erguidos registrando a cena. “Eu sou contra jogar o trator pra cima, ele não viu que até criança tinha lá? Mas também atirar com arma de fogo, aí já é demais”, reflete a atendente comercial Alana Pinheiro, para dizer que nenhum lado tem razão. Seu patrão fechou a loja “para evitar o pior”. Estava indo pra casa quando ocorreram os tiros.

De acordo com a Polícia Civil, a perícia nessas imagens será decisiva para a identificação dos autores dos disparos. Ainda que houvesse uma fita de isolamento, a área do crime foi violada diversas vezes. “Não vai ser tão difícil identificar os autores dos disparos. Eles devem saber tanto disso que não duvido que tenham tentado ir para longe”, quis apostar um dos policiais civis dos quase 30 anos de efetivo local.

Mensagens

Era 11 horas do dia 19 de fevereiro quando um inspetor de Polícia filma com um celular o momento em que PMs encapuzados nas viaturas ordenam que os comércios baixassem as portas. Foi a deixa para ligar para um dos quatro delegados atuantes naquele dia.
- Doutor, eles estão mandando fechar o comércio.
- Isso aí, pra mim, não é Polícia, é bandido.
A ordem era todo mundo na rua, exceto dois que ficariam fazendo a guarda do prédio da Civil. Para manter a lei e a ordem, os policiais civis refaziam o caminho dos amotinados, tentando dizer aos comerciantes que “mantenham a calma, estamos aqui”. O efetivo tenta dar conta.

A Polícia Civil em todo o Ceará está vivendo uma situação no mínimo desconfortável durante os ataques contra a ordem pública praticados por no motim: não podem ceder, mas não podem apertar muito. “Queira ou não, somos todos Polícia, deve existir uma parceria na rotina de trabalho, não tem como fugir disso. Então, ficamos numa situação de ‘guerra fria’”, diz um delegado da Zona Norte, numa alusão ao confronto sem o calor das armas entre nações no século XX.

“O problema é que quando a poeira baixar, estaremos todos por aqui, então temos que saber lidar com essa situação, para não piorar depois, quando tudo isso passar”, acrescenta. A ponderação teve mais um reforço: desde o início da semana circulavam mensagens de WhatsApp em que PMs pressionavam indiretamente a Civil.
A pressão evoluiu com ameaças sutis: “quando pararmos vocês na blitz, vamos pedir toda a documentação”. Até chegar ao “não se metam no nosso caminho”. As mensagens teriam circulado ainda mais entre 18 e 19 de fevereiro. Depois, simplesmente, elas pararam.

Com Cid Gomes no hospital, e a repercussão nacional dos tiros, o motim militar em Sobral começou a se esvaziar. Na manhã de ontem, militares eram vistos voltando ao mesmo quartel da confusão do dia anterior. Mas, dessa vez, chegaram para vestir a farda e seguir para a ronda ostensiva para a qual são pagos.
Por hora, a Polícia Civil em Sobral realiza diligências quanto ao crime que envolveu o atentado a Cid Gomes. A previsão, no entanto, é que o caso seja, muito em breve, federalizado, por se tratar de um membro do Senado Federal.

Outros municípios

Com o esvaziamento do movimento em Sobral, a preocupação dos comandos das polícias na Zona Norte é com outras cidades da região nas quais a “tática do terror” ainda tem funcionado, a exemplo de Itapipoca e Forquilha.

Durante todo o dia de ontem, várias lojas do centro permaneciam fechadas, enquanto esposas de militares ocupavam a entrada dos quartéis, impedindo entrada e saída das corporações. “É uma situação de tensão, mas não queremos o pior. O importante é negociar para que possa se resolver da melhor forma”, explica o coronel PM Colares, que passou o dia dividindo-se entre Forquilha, Itapipoca e Canindé, no Sertão Central.

“Sabemos que o efetivo está reduzido nas ruas, mas acreditamos que assim como Sobral, as paralisações tendem a diminuir em outras cidades. Não temos medido esforços para que todos voltem ao trabalho”, disse o oficial.
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